Quando as atividades da tarde de Sábado se encerraram – algo entre 18:00 e 18:30 -, as portas da Usina do Gasômetro já se encontravam cheias de pessoas com suas bicicletas, a leve chuva que caia sem perturbá-las. Esperavam pela saída até o local onde se realizaria o Ato Por Cidades Mais Humanas. Ele marcava o exato 1 ano após o atropelamento coletivo de ciclistas. O local era o mesmo ponto onde o incidente ocorrera.
O caminho parecia uma pequena Massa Crítica. A pedalada tranquila, as pessoas conversando, por vezes uma velocidade um pouco mais puxada, outras a reduzida de muitas bicicletas se encontrando em cada freada, cada curva, se entendendo. A quantidade era suficiente apenas para tomar a rua. Não sei se houve alguma necessidade de segurar algum cruzamento. Algumas pessoas fizeram a rolhagem, marca da preocupação, do cuidado mútuo, da simples atenção, mas as bicicletas passavam rápidas, mais ou menos próximas, suaves em uma tarde de Sábado que nos deixava.
A chuva aumentou no percurso. Na esquina da Perimetral com a José do Patrocínio, o Largo Zumbi dos Palmares nos recebeu com mais pessoas que esperavam. O encontro foi a tradicional parada para a conversa, olhar o movimento de todos, sentir o momento no qual a confluência de vontades apontasse só esse caminho possível: a partida para o começo do Ato.
Nos perdemos dessa saída. Encontramos a rua já fechada, esquina da José do Patrocínio com a Luis Afonso. A chuva caia marcante. O clima era, se não pesado, triste. A chuva em si não desanimava; parecia propícia. A memória, tanto individual quanto coletiva, que se fazia presente; era com essa memória que cada um e todos dançavam. Enquanto velas eram acesas – e se tentava mantê-las assim -, alguns pegaram livremente no microfone e contaram como foi a experiência daquele dia, 1 ano e poucos minutos antrás. Alguns diziam do incidente, de como fora passar por ele. Outros falaram de como foi chegar logo após, da experiência de ter estado de fora do mais terrível, e ainda assim compartilhá-lo de uma maneira intensa.
Os relatos anunciavam, aos poucos, um estado de suspiro. O mesmo efeito de um silêncio prolongado. E a chuva caia, e aos poucos levava o que havia de tenso, refletia na luz das poças o momento presente, esse em que se dança com o que dói e o transforma em uma grande música. A vida é isso, dança e música que fazemos a todo momento.
Alguém sugeriu que se seguisse pedalando; pelados. Não durou muito o entreolharem-se; alguns rapidamente começaram a tirar suas roupas. Outros mais devagar, de maneira mais recatada. Outros não tiraram peça alguma, mas estavam juntos, e incentivavam a felicidade. Com parte de seu quórum apenas com as roupas de baixo, aquelas pessoas reunidas tornaram-se mais uma vez uma pedalada: espontaneamente pelada. Na chuva. A graça tomou conta, como só pode acontecer quando tomamos conta do meio no qual estamos, e fazemos daquilo que poderia nos afastar uma grande aproximação. Quando tomamos conta das ruas, olhamos uns nos outros, estamos juntos; e fazemos da nossa locomoção uma ponte, uma ação que torna-se o ponto alto de nosso dia, e não o seu problema.
A chuva nunca esteve mais propícia. Lavou nossas almas. Levou consigo o que não queríamos mais. Aguou as sementes do nosso agora e de nosso amanhã.
Fotos: Renata Ibis
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Lindo texto Marcelo, exatamente esse o sentimento que tocou quem esteve lá! Abração!
Depois do belo texto acima inspirado em nossas emoções mais puras, juntamos nossa alegria de participar da ópera “Massa Crítica”, parabéns a todos os que estiveram presentes, mas também estendo meu fraterno abraço a aqueles que por algum motivo estiveram ausentes fisicamente, tenho certeza que esses últimos estiveram presentes, com seus pensamentos neste digno ato por cidades mais humanas. Abraço a todos.
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O texto é do Pedro Lunaris, ausente fisicamente, mas inspirado pelo que escutou, viu nas fotos e sempre sentiu.
Considero um texto conjunto com a Renata Ibis, que deu toda a inspiração da narrativa e a descrição em primeira mão.
Além do título!
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